Boas práticas para promover a vacinação

Quando se fala de promover a vacinação contra a Covid-19, uma resposta comum é que “o problema não é a demanda, o problema é que falta vacina”. Pode ser. Mas em algum momento vai ser. Por isso, decidi tirar meu diploma de Bacharel em Comunicação Social — Publicidade e Propaganda e oferecer sugestões para enfrentar esse problema antes que cresça:

  • Não use agulhas na comunicação. Muita gente tem medo de agulha, mesmo que não se imagine assim. O mérito mais subestimado do Zé Gotinha é que ele não se chama Zé Agulhinha.
  • Privilegie a vacinação por faixa etária. Categorias demais são confusas. Muitas comorbidades são subdiagnosticadas. Nos EUA, um terço dos hipertensos não sabe disso, por exemplo. Muita gente não sabe que é pré-diabética e teria vergonha de pedir um atestado do seu IMC. Idade é fácil de entender, fácil de provar e fácil de prever.
  • Crie listas de espera nos postos de vacinação. Nenhuma dose deveria ser descartada. O posto pode ter uma tabela com nome e telefone de pessoas que se dispõem a correr para a unidade e receber a xepa da vacina. E se ninguém na lista atende, o funcionário deve ter permissão para ir até a calçada, abordar o primeiro pedestre que enxergar e dizer “ô, você aí, já se vacinou? Vem comigo!”
  • Leve a vacina até as pessoas. Nem todo mundo tem tempo ou recursos para ir até a UBS. Mas se tiver vacina na entrada do supermercado, ou na porta da igreja, ou na estação de trem, ou na entrada do shopping, ou na farmácia, fica muito mais fácil.
  • Institua uma loteria para os vacinados. Não, matematicamente, não faz sentido como incentivo para o indivíduo, mas é justamente por isso que funciona. Se fosse só pelo cálculo racional da relação custo-benefício, a pessoa já teria se vacinado. Logo, melhor usar estratégias que convencem quem não entende a matemática da coisa.
  • No mesmo espírito, distribua brindes para todos os vacinados. Nos EUA, a Krispy Kreme deu rosquinhas para quem se vacinou. Vários bares deram bebida. Em West Virginia, o governo vai sortear armas e caminhonetes. No estado de Washington, vai ter baseados de graça para os vacinados.
  • Faça testes A/B. Por exemplo, em um bairro, coloque cartazes enfatizando o benefício da vacina para quem a recebe — reuniões familiares, bares, festas, igreja, fim da máscara, etc. Em outro, enfatize o altruísmo —se chegou a sua vez não espere, vacinar-se ajuda os outros. Uma cidade pode ter um grande prêmio de R$30.000,00 na sua loteria, outra pode ter 30 prêmios de R$1.000,00.
  • Vacine líderes em público. E por público não quero dizer “tuíte seu elogio ao SUS”, quero dizer “vacine o pastor na frente da congregação, vacine o influencer durante uma live, vacine o time de futebol no meio do estádio”.
  • Despolitize. Meu primeiro instinto é que queremos que todos os prefeitos, governadores e até o presidente queiram colar na vacina e lucrar politicamente com o seu sucesso, mas o problema é que tem gente que não vai querer tomar “a vacina do Dória” ou “a vacina do Bolsonaro” ou “a vacina desse prefeito idiota”. Para chegar em todo mundo, tem que transcender identidades.

Finalmente, preciso enfatizar que nenhuma dessas ideias é original. Nenhuma é inovadora. E nem todas vão funcionar. Mas algumas vão. E quanto antes, melhor.

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Tradutor inglês-português. Autor de livros de idioma. Libertário. Pai. Marido. Não nessa ordem.

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