A Isabel

Há uma vida mística enlaçada
Tão carinhosamente com a minha,
Que do Destino a rigorosa espada
Nenhuma ou ambas deverá cortar.

Uma beldade existe, meus amores,
Que contemplo com mágica delícia:
Calmar sabe de dia as minhas dores,
De noite sonhos doces inspirar.

Há uma voz tão pura e melodiosa
Que, ouvindo-a, meu peito se arrebata;
Sem essa voz dulcíssima , maviosa
Celestes coros não quisera ouvir.

Um rosto há, cujo rubor explica
Do meu amor a história em sua face,
E ao despedir-se pálido publica
Mais amor do que eu posso proferir.

Um lábio há que o meu tem comprimido,
E que outro lábio nunca comprimiu;
Ele faz-me feliz; desvanecido
O comprime somente o lábio meu.

Há um seio — próprio meu — nele ardente
Minha cabeça enferma repousou;
Uma boca que ri a mim somente;
Olhos que choram quando choro eu.

Dois corações há que em vibrações
De dulcíssima união se correspondem;
E dizem em acordes pulsações,
Ou juntos palpitar ou fenecer.

Duas almas, que vem tão docemente
Sua vida correr, que ao se apartarem…
Se apartarem? — ah! não. Que eternamente
Uma só essas almas hão de ser.

“Esta tradução, feita pelo Autor desta Gramática , apareceu impressa pela primeira vez no Periódico dos Pobres no Porto , no dia 2 de Agosto de 1848.” Essa é a nota de D. José de Urcullu, “Cavaleiro da Ordem de Cristo, Sócio Correspondente da Real Sociedade Geográfica de Londres, das de Paris e Rio de Janeiro, e autor de várias obras espanholas e portuguesas”, nas páginas 273–4 da Grammatica ingleza para uso dos portuguezes, reduzida a vinte e sete lições, Segunda Edição, Consideravelmente Accrescentada e Corrigida (1848).

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Tradutor inglês-português. Autor de livros de idioma. Libertário. Pai. Marido. Não nessa ordem.

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